Deus se revela em Maria: imagem do que todo cristão deveria ser


Aqui queremos nos deter sobre a figura de Maria como modelo de um coração humano que se abre para a ação da graça de Deus até o ponto de Deus fazer nela morada (cf. Lc 1,35) e por sua imensa benevolência escolhê-la para ser mãe do Verbo que se encarnou entre nós. Os textos que falam de Maria são relatos históricos à luz da ressurreição, testemunhos da fé em Jesus elaborados pelas comunidades com a preocupação primeira de falar e pregar sobre Jesus (cf. Gl 4,4), “mas o pouco que temos sobre Maria, já é o suficiente para amá-la e cultuá-la, como nos lembra o Papa Paulo VI na sua exortação sobre Maria”[1]. As aquisições das ciências humanas e as várias situações do mundo contemporâneo levará a descobrir que Maria é um modelo de que os homens e as mulheres de nosso tempo desejam. Maria é santa porque foi instrumento do gesto salvador de Deus. Cada mulher é semelhança de Deus (cf. Gn 1, 27) por ela revelam as facetas do mistério de Deus que de outra forma ficar-nos-iam para sempre ocultadas.  Maria não desilude algumas das aspirações profundas dos homens e mulheres do nosso tempo. Ao contrário, oferece o modelo acabado do discípulo do Senhor: “construtor da cidade terrena e temporal, e simultaneamente peregrino para a cidade celeste e eterna; promotor da justiça que liberta o oprimido e da caridade, testemunha operosa do amor”[2].

É preciso abandonar uma perspectiva meramente devocional para mergulhar no processo histórico de Maria retratado nos Evangelhos. Não se esquecendo de que “os textos do Novo Testamento sobre Maria foram escritos com os olhos centrados em Jesus e na comunidade dos seus seguidores. Uma Mariologia Bíblica coerente deve seguir essa perspectiva cristocêntrica e eclesial”[3]. Maria é a máxima realização da existência cristã. Através de sua fé (cf. Lc 1,45) e obediência à vontade de Deus (cf. Lc 1,38), assim como por sua constante meditação da Palavra e das ações de Jesus (cf. Lc 2,19. 51) é a discípula mais perfeita do Senhor. Nas condições concretas da sua vida ela aderiu total e responsavelmente à vontade de Deus, acolhendo sua Palavra e colocando-a em prática e sua ação sempre fora animada pela caridade e pelo espírito de serviço. Viveu toda a peregrinação da fé como mãe de Cristo e dos discípulos, na incompreensão e na busca constante do projeto do Pai. Interlocutora do Pai no projeto de enviar o Verbo ao mundo para a salvação humana, com sua fé, Maria é o primeiro membro da comunidade dos crentes em Cristo e também a colaboradora no renascimento espiritual dos discípulos. “Sua figura de mulher livre e forte emerge do Evangelho, conscientemente orientada para o verdadeiro seguimento de Cristo”[4].

Ela foi chamada a ser Mãe, e esta função só tem sua origem no coração, no Amor. A confissão realizada no “Concílio de Éfeso”[5] encontra seu fundamento no Coração de Maria, lugar onde se realiza o desígnio divino. Maria aceita ser mãe no coração (aspecto ativo do amor da Virgem) concebendo primeiro em seu coração (mente) e depois em seu seio. Em Maria vemos uma série de intervenções divinas que a colocam no centro da vontade autocomunicadora de Deus. Primeiro sendo preservada da mancha do pecado, sendo pensada por Deus desde a eternidade como morada permanente do Espírito Santo (cf. Lc 1,35). Pois ela foi preparada para acolher Jesus o novo Adão por meio do Espírito Santo. O Espírito permanece em Maria que o irradia para a Igreja e esta o transmite para a humanidade. “O Espírito respeitando a sua virgindade perpétua, a fez também mãe de Deus. O que nascerá de Maria é o filho eterno de Deus que assume a carne tornando, nosso irmão”[6]. A redenção entendida em sentido objetivo só se refere a Jesus Cristo, visível em sua vida sacrifical, desde seu nascimento até sua morte na cruz. Maria participa na redenção de Cristo, pelo Fiat (faça-se) primeiro (objetivo) e todos os demais Fiat que Maria realizou junto a seu Filho. Sua mediação enquanto mãe nasce, por uma parte, de seu ser vínculo entre Deus e os seres humanos na pessoa de Jesus Cristo (cf. Jo 19, 25-27) por outra parte, de sua intercessão como mãe espiritual dos seres humanos. Ambos os aspectos devem ser vistos desde um coração maternal invadido pelo amor que é presença divina.

Deus de fato privilegia Maria com uma Graça especial, ela nasce mais integrada, com mais capacidade de ser livre e por isso mesmo mais aberta à acolhida de Deus em sua vida. Deus a cumula de bênçãos, mas não lhe tira o esforço de ser peregrina na fé, de lutar no dia a dia e enfrentar o mal e os problemas. E justamente por estar mais aberta ao seu Deus e com um coração cada vez mais humano e livre é que sua vida se torna serviço. “Maria é virgem porque sua virgindade é o sinal de sua fé, absolutamente livre de qualquer dúvida, e de sua doação sem reservas à vontade de Deus”[7]. E a concepção virginal de Jesus em Maria abre para homens e mulheres de todos os tempos e de todas as épocas a perspectiva de um novo nascimento (cf. Jo 1,13). Jesus, o novo Israel que brota do seio da Virgem é a semente do novo povo que é plasmado pelo Espírito no povo fiel do qual Maria é figura e símbolo. Maria é em sua virgindade grávida, aquilo que a humanidade é chamada a ser desde a criação: templo e morada abertos e disponíveis com todas as possibilidades latentes, como uma página em branco para receber as inscrições do Espírito e tornar-se uma carta de Cristo (cf. 2 Cor 3,2), imagem de Deus. Cada dogma nos diz que Maria é uma pessoa humana como nós, mas muito especial. Mostra os segredos de sua pessoa. Maria é como a terra virgem, cheia de viço, cheirosa, aberta para ser fecundada por Deus. “Ao acolher o imenso dom de Deus, ela se torna a mãe do Filho de Deus encarnado. Maria é a mulher de Nazaré mãe e educadora do Messias. Ela se torna a perfeita discípula de Jesus, que ouve a Palavra, medita e a põe em prática”[8]. Maria recebe de Deus uma graça especial. Nasce mais integrada do que nós, com mais capacidade de ser livre e acolher a proposta divina. “Ela se torna morada de Deus entre os homens” (cf. Ap 21,3).

O fato de Maria ser Imaculada não lhe tira o esforço de ser peregrina na fé (cf. Lc 2,19), pois isso faz parte da sua finitude. Ela não entende tudo, tem que revisar esquemas e comportamentos. Deve crescer, do bem para um bem maior, como o fez Jesus. Maria foi mãe, companheira e serva do Senhor, tornando-se assim para nós mãe, na ordem da graça. “Devido à sua maternidade, à união de missão com Cristo, e às suas singulares graças e funções, Maria está também intimamente relacionada com a Igreja”[9]. Como Maria, a Igreja é mãe e virgem: gera novos filhos pelo batismo, guarda a palavra dada ao Esposo, vive na fé, esperança e caridade.  Maria que agora está no Céu é a imagem e o começo da Igreja como deverá ser consumada no tempo futuro. Brilha aqui na terra como sinal de esperança segura e do conforto para o povo de Deus em peregrinação, até que chegue o dia do Senhor. Maria é figura inspiradora para todos os homens e mulheres que buscam Deus (cf. Lc, 1,48) e querem ajudar a construir a civilização do amor. A perfeição de Maria embora sem grandes projeções visíveis exigiu grande empenho humano. Como Deus está plenamente em todas as coisas, assim o santo realiza de modo perfeito todas as coisas, tanto simples quanto complexas.

 Ser santo é a missão de qualquer discípulo que se coloque a seguir os passos de Jesus, mas este processo requer uma radical humanização. Pois quanto mais humano se apresenta alguém, tanto mais o divino aflora nele, até a completa divinização como em Maria, com a graça vinda do Espírito Santo. Maria é a peregrina da fé, ou seja, ela se faz a primeira discípula. Ela acolhe a Palavra de Deus com fé e meditando em seu coração. A simplicidade e a doação total de Maria é o “terreno” que Deus utiliza para criar uma nova humanidade. Como discípula ela acolhe com alegria a sua missão de ser mãe de Jesus e sinal que orienta os cristãos (cf. Jo 19,26). Sua atitude de serviço é testemunho para todos aqueles que com ela se colocam em caminho com o seu filho Jesus. “Como Maria somos impelidos para transformar nossa realidade através da fé alicerçada na promessa de uma sociedade mais próxima do projeto de Deus”[10]. Jesus é o ponto de conversão de toda espiritualidade fundamentada em Maria. Ela apresenta seu filho como o meio para uma vida nova. Na relação existente entre o discipulado e a maternidade está a dimensão feminina de Maria. “Como mulher ela é a caracterização da imagem feminina do Povo de Deus. Ela é feita mãe da comunidade por Jesus e pelo seu testemunho de confiança na promessa”[11].

As questões referentes a Maria estão intimamente ligadas ao processo redentor de seu filho. Por isso que sua santidade está intimamente ligada à sua adesão feita no primeiro sim que foi dado no momento da anunciação (cf. Lc 1,47-48). Maria proporcionou a Jesus a possibilidade de se tornar humano e isto seria indispensável para a redenção da humanidade. Ela é filha de Deus Pai, pois cada ser humano participa desta filiação através de Jesus. Esta filiação só é possível porque ela aceitou ser a mãe do Filho de Deus encarnado. Maria é uma pessoa humana como nós e cada dogma mostra que sua adesão plena aos planos de Deus a faz muito especial. A virgindade de Maria se configura como uma terra cheia de viço que anseia por ser semeada. Neste terreno novo será gerada a nova criatura prometida por Deus desde o primórdio da humanidade. “Seu gesto de amor mudará toda a existência humana, pois consegue desfazer o nó gerado pelo pecado e que afastava o homem da possibilidade de encontrar novamente a Deus”[12].

O catolicismo cultiva um carinho muito especial por Maria e isto se mostra no grande número de devoções populares existentes em todo o mundo. “Estas devoções são meios muito eficientes de evangelização quando feita de maneira correta, ou seja, quando se tem clareza de que Maria não ocupa o lugar que é próprio de Jesus”[13]. Pois o grande perigo é o de esquecer que Maria não é uma deusa, que ela é uma serva, ou melhor, a primeira serva. A mãe de Deus é também a serva do Senhor, que põe sua maternidade a serviço da salvação do povo (cf. Lc 1,38). Assim também a Igreja é chamada a ser serva e colocar o tesouro salvífico da Revelação e da fé, dos quais é depositária, a serviço do mundo e do gênero humano. O mistério de Maria traz também uma palavra nova sobre o ser humano, uma palavra que diz que este ser feito à imagem e semelhança de Deus não pode ser reduzido à estreiteza do sexismo, à alienação do idealismo, mas aberto deve estar para inenarráveis possibilidades diante de Deus. O mistério de Maria traz uma nova palavra sobre Deus. Maria é o humano permeado do divino em todas as suas dimensões e recantos. Sua humanidade inteiramente aberta e penetrada, sua participação plena no projeto do Reino, ajudam-nos a perceber quem é o Deus desse Reino: Deus criador que não cessa de fazer maravilhas em favor dos pobres, de derrubar poderosos e saciar famintos (cf. Lc 1,46-55).

[1] MC 5.

[2] MC 37.

[3] Afonso MURAD, Maria, toda de Deus e tão humana, São Paulo, 2004, p. 21.

[4] Joseph RATZINGER, Dogma e anúncio, São Paulo, 2007, p. 349.

[5] O primeiro Concílio de Éfeso aconteceu em 431 e debateu sobre os ensinamentos cristológicos e mariológicos de Nestório (Patriarca de Constantinopla) e uma de suas definições foi que Maria é Mãe de Deus não porque o verbo de Deus tirou dela a sua natureza divina, mas porque é dela que tem o corpo sagrado dotado de uma alma racional, unido ao qual, na sua pessoa, se diz que o Verbo nasceu segundo a carne (DS 251).

[6] Leonardo BOFF, A Ave Maria: o feminino e o Espírito Santo, Petrópolis, 1997, p. 21.

[7] LG 63.

[8] Afonso MURAD, Maria, toda de Deus e tão humana, São Paulo, 2004, p. 34.

[9] José F. OLIVEIRA, De volta ao catolicismo, São Paulo, 2009, p. 513.

[10] Lina BOFF, Maria e o feminino de Deus, São Paulo, 2005, p. 43.

[11] Bruno FORTE, Maria, a mulher ícone do mistério, São Paulo, 1991, p. 11.

[12] René LAURENTIN, Breve tratado de teologia Mariana, Petrópolis, 1965, p. 67.

[13] DAp 300.


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