Category

Artigos Pe Marcos

Category
Confira os outros artigos do Pe Marcos César – SCJ

Deus que se Revela

Revelação significa desvelar, tirar o véu, que encobria “por assim dizer” o rosto de Deus e o seu desígnio em relação ao ser humano e ao mundo. Daí, revelação: desvelamento de Deus e do seu plano salvífico. Esta comunicação de Deus com os seres humanos e seu conteúdo é o fundamento de toda a Teologia, pois que a Teologia trata de Deus e de todos os seres criados a partir da revelação divina acolhida pela fé. “Aprouve a Deus, em sua bondade e sabedoria, revelar-se a si mesmo e tornar conhecido o mistério de sua vontade, pelo qual os seres humanos, por intermédio de Cristo, Verbo feito carne, no Espírito Santo, têm acesso ao Pai e se tornam participantes da natureza divina”[1]. O ser humano pergunta a Deus e é perguntado por Deus. Responde a Deus e é respondido por Deus. Só pergunta por Deus porque Deus já perguntou antes por ele. Só responde a Deus porque Deus já respondeu também criativa e salvificamente. “O mundo e tudo o que está no mundo precisa de um sentido em Deus único e pessoal”[2]. E esse pensamento é fruto de uma revelação e não de pensamentos humanos. Essa revelação de Deus é toda a base da Teologia e da cultura Ocidental. “A história da revelação consiste justamente nisto: em ir Deus conseguindo que este meio opaco e impotente para o infinito que é o espírito do ser humano vá se sensibilizando para sua manifestação, entrando assim em diálogo com sua palavra e acolhendo a força salvadora de sua graça”[3]. Sabemos que mediante a razão natural o ser humano pode conhecer a Deus através de suas obras, mas foi somente através da infinita bondade de Deus e de uma sua decisão totalmente livre que o mesmo se revela e se doa ao ser humano. Seu Coração de Pai, de criador revela seu mistério, sua benevolência concebida desde toda eternidade em Cristo em prol dos seres humanos.

Ao revelar-se Deus quis tornar os seres humanos capazes de responder-lhe, de conhecê-lo e de amá-lo bem além do que seriam capazes. Na sua vontade livre quis fazer das criaturas participantes de seu ser, de sua sabedoria e de sua bondade. “Quão numerosas são tuas obras, Senhor, e todas fizestes com sabedoria!”(Sl 104,24). Cremos que Deus cria do nada, ordena essa criação, destinando-a para que seja um dom para o ser humano, como uma herança que lhe é confiada. E mesmo Deus sendo infinitamente maior que todas as suas obras continua presente no mais íntimo de sua criação. “Deus presente em sua criação não a abandona ao acaso, não lhe dá apenas o ser e a existência, mas continua presente com sua Divina Providência conduzindo a criação para a perfeição”[4]. Poderíamos até dizer que Deus continua criando e recriando a cada dia. Daí vem também e tão urgente hoje o cuidado com a criação e com a vida. Muitas vezes o homem entendeu errado a criação achando-se um ser superior a ela e não um ser em relação com a mesma. O homem é o guardião, jardineiro da criação, deve dominar como imagem de Deus e não como destruidor.

Dentro dessa maravilhosa criação de Deus está presente o homem e a mulher, criados à semelhança e imagem de Deus (cf. Gn 1,27). Por serem imagem de Deus o homem e a mulher têm a dignidade de pessoa, não são apenas coisas, mas alguém. Deus governa a sua criação atribuindo a cada ser e a cada categoria capacidades de ação que lhes permitam se mover e desenvolver por si mesmos. “E deu ao homem e mulher a liberdade de criar sua própria ação, dentro dessa estrutura criada”[5]. O homem e a mulher quebram, rompem a aliança e unidade com Deus, que no seu coração de Criador alenta-os a esperar uma salvação e promete que velaria permanentemente pelo gênero humano, “a fim de dar a vida eterna a todos aqueles que, pela perseverança na prática do bem, procuram a salvação”[6]. A revelação vai passando pelo processo da maiêutica histórica na vida do povo, que aos poucos vai sentindo e entendo isso e assumindo a presença e atuação de Deus em suas vidas. Desfeita a unidade do gênero humano pelo pecado, Deus procura antes de tudo salvar a humanidade passando por cada uma de suas partes. Temos então a primeira aliança com a pessoa de Noé que expressará o princípio da economia divina para com os seres humanos.

Essa aliança com Noé permanecerá em vigor durante todo o tempo das nações, até a proclamação universal do Evangelho em que teremos a expectativa de Cristo “congregar na unidade todos os filhos de Deus dispersos.” (Jo 11,52). “E para congregar essa humanidade dispersa um dos primeiros homens que se volta para Deus foi Abraão, abrindo para nós o sentido da vida e da história”[7]. Abraão sai da sua terra, de sua parentela, ouvindo a voz do Senhor que o chama e o elege como pai de uma multidão de nações (cf. Gn 17,5) e por estar sempre atento à vontade de Deus tem a promessa de que nele “seriam abençoadas todas as nações da terra” (Gn 12,3). A história de Abraão e dos outros patriarcas não devem ser lidas apenas como relatos, mas, sobretudo como Kerigma, em que a personificação antropomórfica tem por finalidade traduzir o caráter intenso e direto da experiência interior. E será o povo originado de Abraão o depositário da promessa feita ao mesmo e aos outros patriarcas. Esse povo é libertado da escravidão do Egito e faz aliança com Deus no Sinai, através do intermediário Moisés. Foi através de Moisés que Deus revelou o seu nome, que representa a essência, identidade: “Eu sou Aquele que Sou” (Ex 3,13). Essa revelação do seu nome se tornou a revelação fundamental para a Antiga e a Nova Aliança. Este nome de Deus é misterioso como o próprio Deus é misterioso. Ao revelar seu nome, Deus, revela ao mesmo tempo sua fidelidade, que é sempre e para sempre válida tanto para o passado: “Eu Sou o Deus de teus pais” (Ex 3,6) como para o futuro: “Eu estarei contigo” (Ex 3,12). Revela-se como o Deus que está sempre presente junto a seu povo para salvá-lo.

Deus, “Aquele que é”, revelou-se a Israel como Aquele que é rico em amor e fidelidade (cf. Ex 34,6). “Esses dois termos exprimem de forma condensada as riquezas do nome divino”[8]. Deus pede para que esse povo obedecesse a sua lei e que o reconhecessem e obedecessem como o único Deus vivo e verdadeiro, como Pai providente e como juiz justo e que esperassem o Salvador prometido. Depois através dos profetas Deus continua a se revelar, vai formando o seu povo na esperança da salvação. Uma salvação que atingirá todas as nações, mas que virá, sobretudo para os pobres e os humildes do Senhor, os portadores dessa esperança (cf. Jr 31,31-34). O povo passa por momentos muito difíceis, muitas provações, cativeiros. “Nesses momentos surgem os profetas e profetizas que, como guias espirituais, interpretam os acontecimentos presentes, deixando sempre uma porta de esperança para o futuro”[9]. A comunicação de Deus continua e se torna Palavra inspirada através da expressão humana. E essa revelação passa pela cultura, história, costumes de um povo. A Bíblia não quer fazer história ou ciência, quer mostrar a experiência de um povo; por isso é sempre atual.

Ainda é preciso dizer que a Bíblia quer que refaçamos a experiência de fé daquele povo, mas ela é um meio e não um fim. A intuição vem de Deus, por isso é revelação, mas muitas vezes não foi bem captada pelos homens. “Nós cremos no Deus que se revelou ao povo de Israel, e depois em Jesus Cristo, e cuja revelação foi consignada nas Sagradas Escrituras”[10]. É o livro sagrado que constitui a Igreja e também é constituído por ela. Escrito no coração da comunidade de fé ele plasma e continua plasmando nossas comunidades. A Bíblia vai despertar o profeta que está dentro de cada um para não se acovardar. Ela ajuda a dar à luz àquilo que já somos e temos dentro de nós pela livre iniciativa do amor criador. “A revelação bíblico-cristã descreveu um processo que foi da experiência até sua verbalização no sentido de utilizar o papel mediador da palavra falada e depois escrita para traduzir essa experiência crida como manifestação de Deus”[11]. Segundo a revelação bíblica toda revelação de Deus é ao mesmo tempo um convite a abandonar-se ao mistério. Todo encontro com Deus é encontro com o mistério.  A sua existência e a sua revelação implicam a referência a um mistério sempre maior. O ser humano é chamado a escutar e a inserir-se na dinâmica própria da revelação que conduz sempre mais além, até a contemplação face a face.

E por fim a revelação de Deus que acontece como vimos na história, nos acontecimentos, palavras de um povo se dará de forma definitiva em Jesus Cristo, pois ele foi tudo isso: se encarna na história, nas palavras e nos acontecimentos. “O Logos (sentido da criação) se fez homem e se tornou Evangelho. A Teologia caminhando com os seres humanos. Tudo em Jesus é revelador, ele era a exegese viva”[12]. Nós descobrimos a divindade de Jesus em sua humanidade, por isso é preciso estar atentos às suas atitudes, ao que fez e ensinou. Deus que visita os seres humanos vem nos pobres, para que na lógica e pedagogia divina ninguém se sinta excluído da visita de Deus. Com a revelação passa-se para uma nova consciência do ser humano, do mundo e do real, pois ela muda o estado de consciência humana. Se a revelação não provoca o ser humano, cai no vazio, pois ela acontece por iniciativa de Deus, mas precisa da resposta humana. “A Revelação acontece não numa simples linearidade, mas ao longo de momentos fundamentais, importantes, decisivos, que se constituem chave de interpretação de todo outro acontecimento da história humana, quer anterior, quer simultâneo, quer posterior a esses momentos explícitos da história da salvação e da revelação”[13].

 [1] DV 2.

[2] Leonardo BOFF, O Senhor é o meu Pastor, Petrópolis, 2009, p. 37.

[3] Andrés T. QUEIRUGA, A Revelação de Deus na realização humana, São Paulo, 1995, p. 23.

[4] ADV. Haer. III, 20,2.

[5] José COMBLIN, Jesus Cristo e sua missão, São Paulo, 1985, p. 29.

[6] DV 3.

[7] Bruno FORTE, Teologia da história, São Paulo, 1995, p. 95.

[8] CEC 214.

[9]  João Batista LIBANIO, Eu creio, nós cremos, São Paulo, 2000, p. 347.

[10] Edward SCHILLEBEECKX, Revelação e Teologia, São Paulo, 1968, p. 12.

[11] René LATOURELLE, Teologia da Revelação, São Paulo, 1972, p. 14.

[12] Mário F. MIRANDA, Libertados para a práxis da justiça, 1980, p. 13.

[13] João Batista LIBANIO, Eu creio, nós cremos, São Paulo, 2000, p. 349.


pe marcos3

Confira os outros artigos do Pe Marcos César – SCJ

Sacratíssimo Coração de Jesus

 No dia 12 do mês de junho, celebraremos a solenidade do Sagrado Coração de Jesus. Sou padre de uma Congregação religiosa dedicada ao Sagrado Coração de Jesus e nosso querido fundador Pe. João Leão Dehon no fim de sua vida nos deixara como testamento espiritual para que descobríssemos o maravilhoso tesouro que este culto contém. O coração, tantas vezes associado ao amor ou usado como fonte e lugar dos sentimentos, pode trazer surpresas quando bem entendido e estudado e até encantar em se tratando do divino e de sua relação com os seres humanos. A palavra coração não é uma moda da Teologia do momento. Encontra-se presente ao longo das Escrituras e foi usada em todos os tempos.

O povo judeu entendia o coração como a própria pessoa, o ser humano por inteiro, enquanto sujeito capaz de receber e retribuir afetos, de sofrer, ver, alegrar-se, odiar, traçar planos; enfim o ser humano enquanto ser sensível, tanto que poderíamos substituir a palavra coração com o nome ou pronome da pessoa de quem se fala sem qualquer dificuldade. O coração era visto como espelho da alma: era a pessoa mesma vista nas suas raízes profundas, onde cada pessoa era plenamente ela mesma. O semita não conhecia a dualidade entre corpo e espírito. Por isso o coração era para ele o centro da vida física, psíquica, afetiva, intelectual, volitiva e moral. Dentro desse pensamento o coração ainda era visto como o “lugar” onde se concentrava todo ser dos homens e mulheres; era a parte interior de cada um, donde se originavam as suas decisões últimas e se vivia as experiências decisivas.

Em se tratando da devoção ao Sagrado Coração de Jesus não são suficientes as perspectivas devocionais ou as considerações místicas sobre este coração, mas é preciso redescobrir cada vez mais a pessoa de Cristo em sua totalidade e o mistério de seu coração trazendo para o hoje de nossa história o que esse mesmo coração exige ou pede do coração do ser humano.

Amou a todos com um coração humano. Por esta razão “o Sagrado Coração de Jesus, transpassado pelos pecados da humanidade e para a sua salvação é considerado o principal sinal e símbolo daquele amor com o qual o divino Redentor ama interruptamente o Pai e todos os seres humanos”[1]. Mostrava que Deus é presença, que cuida, é gratuito e livre no amor. Jesus vem pregar acima de tudo com a própria vida que Deus é amor e que está do lado dos pobres e marginalizados (cf. Lc 4,18ss) e quer mostrar aos homens e às mulheres de todos os tempos que quando nos apegamos aos milagres de misericórdia estamos prolongando a sua ação no meio da humanidade. As pessoas encontravam Deus em Jesus e Deus encontrava as pessoas em Jesus. Jesus se misturou tanto aos homens que os homens agora são salvos com Ele. A humanidade entra em comunhão com ele quando em suas atitudes e gestos há solidariedade com os sofridos.

 “Quando falamos do Coração de Jesus nos referimos ao homem do coração novo que foi recriado no espírito das bem-aventuranças, provado definitivamente na paixão, libertado na ressurreição pelo poder do Espírito e aberto pelo Pai na transfixão como fonte da novidade humana”[2]. A profundidade mais misteriosa do Coração de Cristo é justamente esta: naquele Coração de homem revela-se e se doa o Coração do próprio Deus. O infinito dentro do finito, o amor divino no amor humano, a vontade de salvação misericordiosa de Deus no desejo de salvação de Jesus.

A espiritualidade do Coração de Cristo é um modo de sentir e viver todo o mistério de Cristo como mistério de amor e como presença entre nós e em nós do amor infinito. O Coração de Jesus nos diz que Deus é amor, que Ele se revela e se doa no amor de Cristo. Como Jesus possuiu um verdadeiro corpo humano, dotado de todos os sentimentos que lhe são próprios, entre os quais sobressai o amor; do mesmo modo é bem verdade que Ele foi provido de um coração físico em tudo semelhante ao nosso.

Uma espiritualidade contemporânea do Coração transpassado deve fundamentar-se numa espiritualidade do coração que tenha como base a experiência pessoal e que se dirija para o ser profundo dos outros. “Hoje até poderíamos ousar dizer que a verdadeira devoção ao Sagrado Coração de Jesus passa pela pessoa do outro e deveria gerar em nós amor, serviço, compaixão, misericórdia e até mesmo reparação”[3].

O culto contém a mensagem com que se dirige a todo ser humano, recordando-lhe que Deus se fez presente entre nós, que Deus se abaixou até a nossa condição e que Cristo, revelando-nos o mistério de seu Coração, nos interpretou os males do mundo, e nos mostrou qual é a sua causa: separado do sobrenatural, separado de Deus, o mundo quedou-se sem o Espírito que vivifica (cf. Jo 6,63). E enquanto não voltar a abrir-se para ele, não viverá.

“Ser cristão é viver em Deus, diante de Deus, com Deus deixando que o próprio Deus viva em nós”[4]. Apesar das dificuldades e desafios do ser humano que carrega esse tesouro em vasos de argila (cf. Cor 4,7) “com essa espiritualidade originada da Trindade é possível assemelhar-se ao Coração do amor e procurar ser sinal desse coração para o mundo, que anseia por corações mais compreensíveis, abertos e humanos”[5]. E quanto mais humano e integrado, mais o divino se revelará nesse humano. Enquanto estamos peregrinando por este mundo somos convidados a repetir todos os gestos de Cristo; somos convidados a uma vida de profunda criatividade para que o nosso ser não se frustre por egoísmo ou por vaidade, mas caminhe para uma plenitude que está reservada para cada um desde sempre. O amor de Cristo quer nos envolver para que possamos participar do ato criador do Pai que nos delega no seguimento de seu Filho ser uma presença de sua glória em todas as relações e em todas as nossas atitudes.

[1] CEC 478.

[2] Idem, p. 92.

[3] Enrico della VALLE, Espiritualidade do Coração, São Paulo, 1988, p. 64.

[4] Maria C. BINGEMER; Galdino FELLER, Deus amor: a Graça que habita em nós, São Paulo, 2003, p. 146.

[5] Edouard GLOTIN, O Coração de Jesus: abordagens antigas e novas, São Paulo, 2003, p. 39.


pe marcos3

Confira os outros artigos do Pe Marcos César – SCJ

As Virtudes de Maria

A devoção à Virgem Maria, Mãe de Deus, é sem dúvida uma grande força da nossa vivência cristã, porque, longe de desviar nossa atenção do Cristo, ela nos integra no plano de salvação proposto por Deus e realizado por seu Filho único, Jesus Cristo, que se encarnou e veio ao mundo por meio dela. Nós celebramos Maria porque é Mãe de Deus, porque nos deu o Salvador e se tornou, de fato e de direito, co-redentora da humanidade. E foi Deus que assim o quis. Foi Deus que, em sua infinita sabedoria e bondade, estabeleceu que a redenção da humanidade acontecesse através de seu Filho único nascido de uma virgem; e a virgem escolhida foi Maria.

Ora, se Deus, o Senhor de todas as coisas, o Infinito e o Absoluto, não se envergonhou de escolher Maria, e a fez Cheia de Graça, para ser a Mãe de seu Filho, por que haveríamos nós, simples mortais, de recusar-nos a ter para com ela uma devoção toda especial?

É bom lembrarmos ainda que a nossa devoção a Maria deve fundamentar-se principalmente na imitação de suas virtudes e no seguimento de Cristo. Quando Cristo disse: “Se alguém quiser me seguir, renuncie a si mesmo, tome sua cruz e me siga” (Mt 16,24), ele se colocou como o primeiro e principal modelo a ser seguido. Maria vem em segundo lugar. Se imitarmos Maria em sua fidelidade, no seu amor a Deus e aos irmãos, com toda a certeza ela nos conduzirá pelos caminhos de seu Filho Jesus.

Ao lermos a Bíblia, os Evangelhos nos mostrarão que Maria como a primeira cristã viveu bem as virtudes da Fé, da Esperança e da Caridade. Antes de trazer o Filho de Deus em seu seio já o trazia no desejo de seu coração, pois como mulher judia esperava e acreditava que Deus um dia enviaria o Messias. Como modelo de Caridade deixa sua casa e vai servir Isabel sua prima de idade avançada que está grávida, permanecendo com ela os três meses finais (Lc1,36;56) e ainda estando presente com a Igreja que está nascendo e sendo perseguida (At 1,14).

Foi modelo de um olhar de fé e de esperança, sobretudo quando na tormenta da paixão do Filho, conservou no coração uma fé total nele e no Pai. Enquanto os discípulos, envolvidos pelos acontecimentos, ficaram profundamente abalados na sua fé, Maria embora provada pelo sofrimento, permaneceu integra na certeza de que se realizaria a predição de Jesus: “0 Filho do Homem… ao terceiro dia, ressuscitará” (Mt 17, 22-23).

 Com este olhar de fé e de esperança, Maria encoraja a Igreja e os cristãos a cumprir sempre a vontade do Pai, que nos foi manifestado por Cristo e que através de sua intercessão sejamos homens e mulheres da Fé, da Esperança e da Caridade.


pe marcos3

Confira os outros artigos do Pe Marcos César – SCJ

A Ação do Espírito Santo na Igreja

 Consumada a obra que o Pai tinha confiado ao Filho sobre a terra (Cf. Jo 17,4), no dia de Pentecostes foi enviado o Espírito Santo para santificar continuamente a Igreja, e assim os que viessem a acreditar tivessem, mediante Cristo, acesso ao Pai num só Espírito (Cf. Ef 2,18). Temos agora o início do tempo da Igreja, tempo marcado pela expansão do Evangelho, testemunho apostólico. O Espírito que habita na Igreja garante a ela conhecimento da verdade, faz com se mantenha sempre jovem, renovando-a continuamente através do ministério, dos dons hierárquicos e carismáticos.

Atuando na Igreja, o Espírito Santo, indica o caminho que leva à união dos cristãos, é fonte dessa unidade, espelhada na comunhão e unidade da Trindade. A Igreja descobre na sua atuação no mundo os maiores apelos pelo qual a humanidade passa. A Igreja “é impelida pelo mesmo Espírito Santo a cooperar para que se realize o desígnio de Deus, que constitui Cristo princípio de salvação para o mundo inteiro”.[1]

Como membros da Igreja, participamos do corpo de Cristo, Cristo se nos abre no Espírito. Este Espírito de Deus é uma força que nos faz vivenciar a Cristo. “Apoderados no Espírito e pelo Espírito, pertencemos a Cristo, pois se trata do Espírito dele (Rm 8,9b)”.[2] Pelo fato de estarmos em Cristo e no Espírito podemos viver na liberdade, como santificados, iluminados como eleitos de Deus.

Este será o defensor, o paráclito, continuador das obras salvíficas, aquele que ajuda a compreender a mensagem de Cristo, aquele que garante a mesma verdade na Igreja que os Apóstolos ouviram de Jesus. A ação do Espírito na Igreja garante a continuidade do testemunho apostólicos nos seus sucessores, guiando-os no caminho da verdade. Por meio do Espírito o Pai vivifica os homens mortos pelo pecado. Nos filhos dá testemunho de que são filhos adotivos (Cf. Gl 4,6).

A consistência da Igreja consiste no ser sustentada pelo Espírito, é o mesmo Espírito que age na dimensão sacramental, na sua renovação, na sua santificação através dos sacramentos, na atuação de seus ministros, na conservação da tradição apostólica e na constante busca da realização do Reino de Deus no aqui e agora da humanidade. Enquanto corpo de Cristo é o Espírito que dá vida e a faz crescer.

 Com suas particularidades, as pessoas são a grande riqueza da Igreja, que são conduzidas pelo Espírito de Deus para viver a unidade em meio a tantas realidades diferentes, animando sua diversidade. A Trindade é para a Igreja paradigma de unidade. Na Igreja temos dois sacramentos que demonstram a unidade: O Batismo e a Eucaristia.

Temos na Igreja uma unidade de fé, embora demonstrada através de muitas expressões. Temos uma unidade de sacramentos, através de muitos ritos. Temos uma unidade de governo, através de muitos ministérios. São esses 3 elementos que mostram a unidade. A unidade não é uniformidade, há sempre diversidade.

O Espírito Santo é princípio de catolicidade. O significado da palavra católico vem do grego “Kath olon” que significa universal. A catolicidade se fundamenta na comunhão de fé, na comunhão sacramental e na comunhão com o bispo de Roma. A Igreja é católica em duplo sentido: Porque nela Cristo está presente, onde está Jesus Cristo aí está a Igreja; e porque é enviada em missão por Cristo à universalidade do gênero humano.

O Espírito Santo santifica a Igreja. A Igreja pode ser chamada de Santa porque deve ser olhada em relação a Deus. Este é Santo, a santidade de Deus é partilhada, a Santíssima Trindade partilha a santidade com a humanidade. Porque Deus é Santo, a Igreja também é Santa, porque procede deles, da Trindade. Atuando na vida da Igreja, nos seus membros, o Espírito Santo suscita e irradia a santidade.

Concluindo esta reflexão sobre a ação do Espírito Santo na Igreja, dizemos que é o Espírito Santo que nos move a rezar, a contemplar a Deus, a buscar a santidade. É Ele que nos fortalece, nos conforta em nossos sofrimentos e dificuldades. É o Espírito Santo que nos faz vencer as tentações tão insinuantes e perigosas da carne, da soberba, do orgulho, do desejo de coisas vãs e supérfluas. É Ele que habita em nós como num templo e, na verdade, nos consagra ao Pai e ao Filho.

[1] LG 17.

[2] Mysterium Salutis. A Igreja. Vozes. 1975. V. IV/1. p. 144.

pe marcos3

Pentecostes e o início da Igreja


A Igreja é vivificada e animada pelo Espírito Santo. Como vemos em Pentecostes, não basta um grupo de pessoas para se formar uma comunidade cristã; é preciso o Espírito divino. Santo Ireneu explica porquê: «Assim como não é possível, sem a água, fazer da farinha um pão, assim também nós, que somos muitos, não podíamos tornar-nos um só em Jesus Cristo, sem a água que vem do Céu», o Espírito Santo. Este habita na Igreja, não como hóspede, nem um estranho, mas como a sua alma, que transforma a comunidade em templo santo de Deus, assimilando-a continuamente a Si por meio do dom que Lhe é próprio, a caridade.

Hoje queremos refletir sobre o mistério do corpo de Cristo, que é a Igreja enquanto vivificada e animada pelo Espírito Santo. Depois do acontecimento de Pentecostes, o grupo que dá origem à Igreja muda profundamente: primeiro se tratava de um grupo fechado e parado, cujo número era de “uns cento e vinte” (At 1,15); logo se transformou em um grupo aberto e dinâmico ao qual depois do discurso de Pedro, “se uniram umas três mil pessoas” (At 2,41). A verdadeira novidade não é tanto este crescimento numérico, ainda que seja extraordinário, mas a presença do Espírito Santo. Com efeito, para que exista a comunidade cristã não basta um grupo de pessoas. A Igreja nasce do Espírito do Senhor.

Este nascimento no Espírito, que teve lugar para toda a Igreja em Pentecostes, se renova para cada crente no batismo, quando somos mergulhados “em um só Espírito”, para ser enxertados “em um só corpo” (1Cor 12,13). A presença do Espírito Santo na Igreja faz que ela, ainda que esteja marcada pelo pecado de seus membros, seja preservada do defeito. Com efeito, a santidade não só substitui o pecado, como o supera. Também neste sentido se pode dizer com São Paulo que onde abundou o pecado, superabundou a graça (cf. Rm 5,20). O Espírito Santo habita na Igreja, não como um hóspede que, portanto, é um estranho, mas como a alma que transforma a comunidade no “templo santo de Deus”. (1 Co 3, 17; cf. 6, 19; Ef 2, 21).

O Espírito que habita na Igreja mora também no coração de cada fiel: é o dulcis hospes animæ. Portanto, seguir um caminho de conversão e santificação pessoal significa deixar-se “guiar” pelo espírito (cf. Rm 8,14), permitir a Ele trabalhar, orar e amar em nós. “Fazer-nos santos” é possível, se nos deixamos santificar por aquele é o Santo, colaborando docilmente em sua ação transformadora. “Por isso, para o fortalecimento da fé e do testemunho dos cristãos, “é necessário suscitar em cada fiel um verdadeiro anseio de santidade, um forte desejo de conversão e de renovação pessoal em um clima de oração cada vez mais intensa e de solidária acolhida do próximo, especialmente do mais necessitado” (Tertio millennio adveniente, 42). Podemos considerar que o Espírito Santo é como a alma de nossa alma e, portanto, o segredo de nossa santificação. Permitamos que sua presença forte e discreta, íntima e transformadora, habite em nós.

Na bem-aventurança eterna viveremos na alegre participação, que agora está prefigurada e antecipada pela Eucaristia. Então o Espírito fará amadurecer plenamente todas as sementes de comunhão de amor e de fraternidade que tenham florescido durante nossa peregrinação terrena. Como afirma São Gregório de Nissa, “envolvidos pela unidade do Espírito Santo, assim como pelo vínculo da paz, todos serão um só corpo e um só Espírito” (Hom 15 in Cant.).


pe marcos3

A Missão de Maria 


 

Aqui queremos nos deter sobre a figura de Maria como modelo de um coração humano que se abre para a ação da graça de Deus até o ponto de Deus fazer nela morada (cf. Lc 1,35) e por sua imensa benevolência escolhê-la para ser mãe do Verbo que se encarnou entre nós. Maria não desilude algumas das aspirações profundas dos homens e mulheres do nosso tempo. Ao contrário, oferece o modelo acabado do discípulo do Senhor: “construtor da cidade terrena e temporal, e simultaneamente peregrino para a cidade celeste e eterna; promotor da justiça que liberta o oprimido e da caridade, testemunha operosa do amor”[1].

Maria é a máxima realização da existência cristã. Através de sua fé (cf. Lc 1,45) e obediência à vontade de Deus (cf. Lc 1,38), assim como por sua constante meditação da Palavra e das ações de Jesus (cf. Lc 2,19. 51) é a discípula mais perfeita do Senhor. Nas condições concretas da sua vida ela aderiu total e responsavelmente à vontade de Deus, acolhendo sua Palavra e colocando-a em prática e sua ação sempre fora animada pela caridade e pelo espírito de serviço. Viveu toda a peregrinação da fé como mãe de Cristo e dos discípulos, na incompreensão e na busca constante do projeto do Pai. Interlocutora do Pai no projeto de enviar o Verbo ao mundo para a salvação humana, com sua fé, Maria é o primeiro membro da comunidade dos crentes em Cristo e também a colaboradora no renascimento espiritual dos discípulos.

Maria é o humano permeado do divino em todas as suas dimensões e recantos. Sua humanidade inteiramente aberta e penetrada, sua participação plena no projeto do Reino, ajudam-nos a perceber quem é o Deus desse Reino: Deus criador que não cessa de fazer maravilhas em favor dos pobres, de derrubar poderosos e saciar famintos (cf. Lc 1,46-55).

Maria ensinar-nos-á também que nosso trabalho estará completo quando cada qual puder fazer sua afirmação: “Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim!” (Gl 2,20). Acredito que sua maior alegria será nos ensinar a penetrar no coração de seu Filho, para conhecer seu amor (cf. Ef 3,19) e ter seus sentimentos (cf. Fl 2,5).

Santo Ildefonso de Toledo (607-670), grande devoto de Nossa Senhora, dizia: “Rogo-te, virgem santa, que daquele Espírito que te fez gerar Jesus, eu receba Jesus. Que a minha alma receba Jesus por meio daquele Espírito que fez com que a tua carne o concebesse”.
[1] MC 37 – Exortação Apostólica Marialis cultus – do Papa Paulo VI.


pe marcos3

 

 


 

 

Deus se revela em Maria: imagem do que todo cristão deveria ser


Aqui queremos nos deter sobre a figura de Maria como modelo de um coração humano que se abre para a ação da graça de Deus até o ponto de Deus fazer nela morada (cf. Lc 1,35) e por sua imensa benevolência escolhê-la para ser mãe do Verbo que se encarnou entre nós. Os textos que falam de Maria são relatos históricos à luz da ressurreição, testemunhos da fé em Jesus elaborados pelas comunidades com a preocupação primeira de falar e pregar sobre Jesus (cf. Gl 4,4), “mas o pouco que temos sobre Maria, já é o suficiente para amá-la e cultuá-la, como nos lembra o Papa Paulo VI na sua exortação sobre Maria”[1]. As aquisições das ciências humanas e as várias situações do mundo contemporâneo levará a descobrir que Maria é um modelo de que os homens e as mulheres de nosso tempo desejam. Maria é santa porque foi instrumento do gesto salvador de Deus. Cada mulher é semelhança de Deus (cf. Gn 1, 27) por ela revelam as facetas do mistério de Deus que de outra forma ficar-nos-iam para sempre ocultadas.  Maria não desilude algumas das aspirações profundas dos homens e mulheres do nosso tempo. Ao contrário, oferece o modelo acabado do discípulo do Senhor: “construtor da cidade terrena e temporal, e simultaneamente peregrino para a cidade celeste e eterna; promotor da justiça que liberta o oprimido e da caridade, testemunha operosa do amor”[2].

É preciso abandonar uma perspectiva meramente devocional para mergulhar no processo histórico de Maria retratado nos Evangelhos. Não se esquecendo de que “os textos do Novo Testamento sobre Maria foram escritos com os olhos centrados em Jesus e na comunidade dos seus seguidores. Uma Mariologia Bíblica coerente deve seguir essa perspectiva cristocêntrica e eclesial”[3]. Maria é a máxima realização da existência cristã. Através de sua fé (cf. Lc 1,45) e obediência à vontade de Deus (cf. Lc 1,38), assim como por sua constante meditação da Palavra e das ações de Jesus (cf. Lc 2,19. 51) é a discípula mais perfeita do Senhor. Nas condições concretas da sua vida ela aderiu total e responsavelmente à vontade de Deus, acolhendo sua Palavra e colocando-a em prática e sua ação sempre fora animada pela caridade e pelo espírito de serviço. Viveu toda a peregrinação da fé como mãe de Cristo e dos discípulos, na incompreensão e na busca constante do projeto do Pai. Interlocutora do Pai no projeto de enviar o Verbo ao mundo para a salvação humana, com sua fé, Maria é o primeiro membro da comunidade dos crentes em Cristo e também a colaboradora no renascimento espiritual dos discípulos. “Sua figura de mulher livre e forte emerge do Evangelho, conscientemente orientada para o verdadeiro seguimento de Cristo”[4].

Ela foi chamada a ser Mãe, e esta função só tem sua origem no coração, no Amor. A confissão realizada no “Concílio de Éfeso”[5] encontra seu fundamento no Coração de Maria, lugar onde se realiza o desígnio divino. Maria aceita ser mãe no coração (aspecto ativo do amor da Virgem) concebendo primeiro em seu coração (mente) e depois em seu seio. Em Maria vemos uma série de intervenções divinas que a colocam no centro da vontade autocomunicadora de Deus. Primeiro sendo preservada da mancha do pecado, sendo pensada por Deus desde a eternidade como morada permanente do Espírito Santo (cf. Lc 1,35). Pois ela foi preparada para acolher Jesus o novo Adão por meio do Espírito Santo. O Espírito permanece em Maria que o irradia para a Igreja e esta o transmite para a humanidade. “O Espírito respeitando a sua virgindade perpétua, a fez também mãe de Deus. O que nascerá de Maria é o filho eterno de Deus que assume a carne tornando, nosso irmão”[6]. A redenção entendida em sentido objetivo só se refere a Jesus Cristo, visível em sua vida sacrifical, desde seu nascimento até sua morte na cruz. Maria participa na redenção de Cristo, pelo Fiat (faça-se) primeiro (objetivo) e todos os demais Fiat que Maria realizou junto a seu Filho. Sua mediação enquanto mãe nasce, por uma parte, de seu ser vínculo entre Deus e os seres humanos na pessoa de Jesus Cristo (cf. Jo 19, 25-27) por outra parte, de sua intercessão como mãe espiritual dos seres humanos. Ambos os aspectos devem ser vistos desde um coração maternal invadido pelo amor que é presença divina.

Deus de fato privilegia Maria com uma Graça especial, ela nasce mais integrada, com mais capacidade de ser livre e por isso mesmo mais aberta à acolhida de Deus em sua vida. Deus a cumula de bênçãos, mas não lhe tira o esforço de ser peregrina na fé, de lutar no dia a dia e enfrentar o mal e os problemas. E justamente por estar mais aberta ao seu Deus e com um coração cada vez mais humano e livre é que sua vida se torna serviço. “Maria é virgem porque sua virgindade é o sinal de sua fé, absolutamente livre de qualquer dúvida, e de sua doação sem reservas à vontade de Deus”[7]. E a concepção virginal de Jesus em Maria abre para homens e mulheres de todos os tempos e de todas as épocas a perspectiva de um novo nascimento (cf. Jo 1,13). Jesus, o novo Israel que brota do seio da Virgem é a semente do novo povo que é plasmado pelo Espírito no povo fiel do qual Maria é figura e símbolo. Maria é em sua virgindade grávida, aquilo que a humanidade é chamada a ser desde a criação: templo e morada abertos e disponíveis com todas as possibilidades latentes, como uma página em branco para receber as inscrições do Espírito e tornar-se uma carta de Cristo (cf. 2 Cor 3,2), imagem de Deus. Cada dogma nos diz que Maria é uma pessoa humana como nós, mas muito especial. Mostra os segredos de sua pessoa. Maria é como a terra virgem, cheia de viço, cheirosa, aberta para ser fecundada por Deus. “Ao acolher o imenso dom de Deus, ela se torna a mãe do Filho de Deus encarnado. Maria é a mulher de Nazaré mãe e educadora do Messias. Ela se torna a perfeita discípula de Jesus, que ouve a Palavra, medita e a põe em prática”[8]. Maria recebe de Deus uma graça especial. Nasce mais integrada do que nós, com mais capacidade de ser livre e acolher a proposta divina. “Ela se torna morada de Deus entre os homens” (cf. Ap 21,3).

O fato de Maria ser Imaculada não lhe tira o esforço de ser peregrina na fé (cf. Lc 2,19), pois isso faz parte da sua finitude. Ela não entende tudo, tem que revisar esquemas e comportamentos. Deve crescer, do bem para um bem maior, como o fez Jesus. Maria foi mãe, companheira e serva do Senhor, tornando-se assim para nós mãe, na ordem da graça. “Devido à sua maternidade, à união de missão com Cristo, e às suas singulares graças e funções, Maria está também intimamente relacionada com a Igreja”[9]. Como Maria, a Igreja é mãe e virgem: gera novos filhos pelo batismo, guarda a palavra dada ao Esposo, vive na fé, esperança e caridade.  Maria que agora está no Céu é a imagem e o começo da Igreja como deverá ser consumada no tempo futuro. Brilha aqui na terra como sinal de esperança segura e do conforto para o povo de Deus em peregrinação, até que chegue o dia do Senhor. Maria é figura inspiradora para todos os homens e mulheres que buscam Deus (cf. Lc, 1,48) e querem ajudar a construir a civilização do amor. A perfeição de Maria embora sem grandes projeções visíveis exigiu grande empenho humano. Como Deus está plenamente em todas as coisas, assim o santo realiza de modo perfeito todas as coisas, tanto simples quanto complexas.

 Ser santo é a missão de qualquer discípulo que se coloque a seguir os passos de Jesus, mas este processo requer uma radical humanização. Pois quanto mais humano se apresenta alguém, tanto mais o divino aflora nele, até a completa divinização como em Maria, com a graça vinda do Espírito Santo. Maria é a peregrina da fé, ou seja, ela se faz a primeira discípula. Ela acolhe a Palavra de Deus com fé e meditando em seu coração. A simplicidade e a doação total de Maria é o “terreno” que Deus utiliza para criar uma nova humanidade. Como discípula ela acolhe com alegria a sua missão de ser mãe de Jesus e sinal que orienta os cristãos (cf. Jo 19,26). Sua atitude de serviço é testemunho para todos aqueles que com ela se colocam em caminho com o seu filho Jesus. “Como Maria somos impelidos para transformar nossa realidade através da fé alicerçada na promessa de uma sociedade mais próxima do projeto de Deus”[10]. Jesus é o ponto de conversão de toda espiritualidade fundamentada em Maria. Ela apresenta seu filho como o meio para uma vida nova. Na relação existente entre o discipulado e a maternidade está a dimensão feminina de Maria. “Como mulher ela é a caracterização da imagem feminina do Povo de Deus. Ela é feita mãe da comunidade por Jesus e pelo seu testemunho de confiança na promessa”[11].

As questões referentes a Maria estão intimamente ligadas ao processo redentor de seu filho. Por isso que sua santidade está intimamente ligada à sua adesão feita no primeiro sim que foi dado no momento da anunciação (cf. Lc 1,47-48). Maria proporcionou a Jesus a possibilidade de se tornar humano e isto seria indispensável para a redenção da humanidade. Ela é filha de Deus Pai, pois cada ser humano participa desta filiação através de Jesus. Esta filiação só é possível porque ela aceitou ser a mãe do Filho de Deus encarnado. Maria é uma pessoa humana como nós e cada dogma mostra que sua adesão plena aos planos de Deus a faz muito especial. A virgindade de Maria se configura como uma terra cheia de viço que anseia por ser semeada. Neste terreno novo será gerada a nova criatura prometida por Deus desde o primórdio da humanidade. “Seu gesto de amor mudará toda a existência humana, pois consegue desfazer o nó gerado pelo pecado e que afastava o homem da possibilidade de encontrar novamente a Deus”[12].

O catolicismo cultiva um carinho muito especial por Maria e isto se mostra no grande número de devoções populares existentes em todo o mundo. “Estas devoções são meios muito eficientes de evangelização quando feita de maneira correta, ou seja, quando se tem clareza de que Maria não ocupa o lugar que é próprio de Jesus”[13]. Pois o grande perigo é o de esquecer que Maria não é uma deusa, que ela é uma serva, ou melhor, a primeira serva. A mãe de Deus é também a serva do Senhor, que põe sua maternidade a serviço da salvação do povo (cf. Lc 1,38). Assim também a Igreja é chamada a ser serva e colocar o tesouro salvífico da Revelação e da fé, dos quais é depositária, a serviço do mundo e do gênero humano. O mistério de Maria traz também uma palavra nova sobre o ser humano, uma palavra que diz que este ser feito à imagem e semelhança de Deus não pode ser reduzido à estreiteza do sexismo, à alienação do idealismo, mas aberto deve estar para inenarráveis possibilidades diante de Deus. O mistério de Maria traz uma nova palavra sobre Deus. Maria é o humano permeado do divino em todas as suas dimensões e recantos. Sua humanidade inteiramente aberta e penetrada, sua participação plena no projeto do Reino, ajudam-nos a perceber quem é o Deus desse Reino: Deus criador que não cessa de fazer maravilhas em favor dos pobres, de derrubar poderosos e saciar famintos (cf. Lc 1,46-55).

[1] MC 5.

[2] MC 37.

[3] Afonso MURAD, Maria, toda de Deus e tão humana, São Paulo, 2004, p. 21.

[4] Joseph RATZINGER, Dogma e anúncio, São Paulo, 2007, p. 349.

[5] O primeiro Concílio de Éfeso aconteceu em 431 e debateu sobre os ensinamentos cristológicos e mariológicos de Nestório (Patriarca de Constantinopla) e uma de suas definições foi que Maria é Mãe de Deus não porque o verbo de Deus tirou dela a sua natureza divina, mas porque é dela que tem o corpo sagrado dotado de uma alma racional, unido ao qual, na sua pessoa, se diz que o Verbo nasceu segundo a carne (DS 251).

[6] Leonardo BOFF, A Ave Maria: o feminino e o Espírito Santo, Petrópolis, 1997, p. 21.

[7] LG 63.

[8] Afonso MURAD, Maria, toda de Deus e tão humana, São Paulo, 2004, p. 34.

[9] José F. OLIVEIRA, De volta ao catolicismo, São Paulo, 2009, p. 513.

[10] Lina BOFF, Maria e o feminino de Deus, São Paulo, 2005, p. 43.

[11] Bruno FORTE, Maria, a mulher ícone do mistério, São Paulo, 1991, p. 11.

[12] René LAURENTIN, Breve tratado de teologia Mariana, Petrópolis, 1965, p. 67.

[13] DAp 300.


pe marcos3

Maria no Hoje de nossa História

Ser santo é a missão de qualquer discípulo que se coloque a seguir os passos de Jesus, mas este processo requer uma radical humanização. Pois quanto mais humano se apresenta alguém, tanto mais o divino aflora nele, até a completa divinização como em Maria, com a graça vinda do Espírito Santo. Maria é a peregrina da fé, ou seja, ela se faz a primeira discípula. Ela acolhe a Palavra de Deus com fé e meditando em seu coração. A simplicidade e a doação total de Maria é o “terreno” que Deus utiliza para criar uma nova humanidade. Como discípula ela acolhe com alegria a sua missão de ser mãe de Jesus e sinal que orienta os cristãos (cf. Jo 19,26). Sua atitude de serviço é testemunho para todos aqueles que com ela se colocam em caminho com o seu filho Jesus. “Como Maria somos impelidos para transformar nossa realidade através da fé alicerçada na promessa de uma sociedade mais próxima do projeto de Deus”[1]. Jesus é o ponto de conversão de toda espiritualidade fundamentada em Maria. Ela apresenta seu filho como o meio para uma vida nova. Na relação existente entre o discipulado e a maternidade está a dimensão feminina de Maria. “Como mulher ela é a caracterização da imagem feminina do Povo de Deus. Ela é feita mãe da comunidade por Jesus e pelo seu testemunho de confiança na promessa”[2].

Antropologicamente, a maternidade divina de Maria, o mistério da encarnação de Deus, é a afirmação de que Deus assumiu o homem, deu-lhe dignidade, humanizou-o e lhe deu a possibilidade de se realizar dentro de um projeto concreto de vida, dando-lhe o modelo: Jesus, que com suas palavras e atitudes mostrou ao homem a sua verdadeira identidade e lhe testemunhou o que é a verdadeira liberdade. “Deus pediu a Maria o seu consentimento. Desta forma, o desígnio de libertação de Deus ficou subordinado ao consentimento de uma mulher. Deus se sujeitou à humanidade representada por uma de suas filhas. Assim, a maternidade de Maria foi consciente, livre e voluntária. Maria em sua maternidade assumiu um papel ativo de colaboradora de Deus” [3].

Hoje podemos dizer que Maria é a mãe num mundo que não tem aspecto maternal, num mundo que não acolhe a palavra de Deus. Ela é a última representante e imagem de um mundo diferente, mais acolhedor. A sociedade é fechada e excludente. “A maternidade de Maria significa a abertura e a acolhida a todos os homens, sejam eles quais forem” [4].

[1] Lina BOFF, Maria e o feminino de Deus, São Paulo, 2005, p. 43.

[2] Bruno FORTE, Maria, a mulher ícone do mistério, São Paulo, 1991, p. 11.

[3] COMBLIN, J. A igreja e sua missão no mundo. Ed. Paulinas. São Paulo. 1985.

[4] Ibidem


pe marcos3