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A Eucaristia e os cristãos hoje

Desde o início a Igreja reúne-se em assembléia para fazer o que o Senhor Jesus fez na noite antes de sua paixão, cumprindo o “fazei isto em minha memória” (1Cor 11,24). A Eucaristia é um sacramento a ser celebrado em comunidade. “Quem participa nela tem o compromisso de transformar-se não só a si mesmo, mas também as relações entre os homens”[1].

Na última ceia com seus discípulos temos um dos gestos mais importantes de Jesus, cheio do Espírito Santo os aspectos de sua vida pública, tais como a justificação, esperança, pacificação e cura encontraram convergência em suas palavras e no seu gesto de amor. “A ação da última ceia justifica os pecadores diante de Deus, dá-lhes uma experiência que antecipa a alegria do Reino, une-os, reconciliando-os uns com os outros e oferecendo-lhes a cura das almas”[2].

A Eucaristia, conforme a palavra do próprio Concílio Vaticano II é o sacramento mais intimamente ligado ao mistério do coração transpassado e mistério da Igreja. “Tudo o que se encontra no mistério do coração de Cristo sob os símbolos pascais do sangue e da água brotados no Calvário celebra-o a Eucaristia em maravilhosa síntese, sob os sinais do pão e do vinho – corpo entregue e sangue derramado”[3]. A Eucaristia nos abre um horizonte para aquilo que devemos fazer, para o Evangelho que devemos anunciar, proclamando uma vida melhor e um mundo mais fraterno, a partilha entre os homens, o amor como fundamento de vida, a justiça e a paz; enfim o Reino de Deus. “O Coração de Cristo potencializa e personaliza todos os corações humanos, e, através do sacramento da Eucaristia transforma o mundo no corpo de Cristo, numa transubstanciação universal”[4].

Na Sagrada Eucaristia celebramos a presença sempre nova e ativa do único sacrifício da cruz, em que a redenção se tornou um acontecimento eternamente presente, indissoluvelmente ligado à intercessão mesma do salvador. Na Sagrada Eucaristia comungamos com Cristo, único sacerdote e vítima, que nos arrasta ao movimento de sua oferenda e de sua adoração. A Eucaristia está voltada para ajudar os cristãos não só a agradecer ao Pai pelo dom que Jesus faz de si mesmo, e que nos é comunicado, mas também a praticar diversas formas de partilha humana, que refletem o ensinamento de Jesus sobre a necessidade de tornar o rito um ato espiritual que induz um caminho na verdade: “Deus é espírito, e quem o adora deve adorá-lo em espírito e em verdade” (Jo 4,24).

Todas as vezes que nos reunimos Ele está presente no meio de nós: “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou aí no meio deles” (Mt 18,20). Somos o seu corpo, Ele age em nossas ações, “Eis que eu estarei convosco todos os dias, até o fim dos tempos” (Mt 28,20). Somos árvores de morte e Jesus, a árvore da vida. Mas podemos rezar juntos como São Bernardo um dia rezou: Ó Divindade eterna, que maravilha é ver, na vossa Luz, a árvore pura de vossa criatura, que tirastes de vós, suma pureza, com pura inocência, e a unistes e plantastes na humanidade, que formastes com o limo da terra!…Verbo eterno ocultou a sua divindade, apareceu na terra apenas como homem; mas, morando entre nós neste sacramento, Jesus esconde também a sua humanidade e só deixa ver as aparências do pão para manifestar-nos a ternura do seu amor para conosco. “Escondida está sua divindade – escondida está sua humanidade; só as entranhas de sua caridade se mostram sem véu.

Como outrora, revela-nos as Escrituras e parte o pão para nós. Ó Jesus, na Eucaristia, nós te adoramos e aprendemos que o sonho de Deus é que todos comam do mesmo Pão e bebam do mesmo Cálice, partilhando o pão da vida com nossos irmãos.  Ajudai-nos Senhor a vivermos com gratidão toda a nossa vida na força do alimento celeste, participando na morte e na ressurreição do Senhor. Que sejamos solícitos em praticarmos boas obras e agradar-vos, impregnando o mundo de espírito cristão e transformando-nos em testemunhas de Cristo em tudo, no meio da comunidade humana.

Nutridos por vós e de vós, ó Jesus, serão os homens fortes na fé, alegres na esperança, diligentes nas múltiplas obras da caridade. Saberão nossas vontades superar as ignorâncias do mal, as tentações do egoísmo, os cansaços da preguiça. E aos olhos dos homens retos aparecerá a visão da terra dos vivos, de que o progressivo caminhar da Igreja militante quer ser a imagem, ao fazer ressoar no universo as primeiras vozes, misteriosas e suavíssimas da Cidade de Deus.

[1]  Urbano ZILLES, Os sacramentos da Igreja Católica, Porto Alegre, 2005, p. 286.

[2] Philip ROSATO, Introdução à teologia dos sacramentos, São Paulo, 1999, p. 75.

[3] SC 36.

[4] Gérard DUFOUR, Na escola do Coração de Jesus com Cláudio La Colombiére, São Paulo, 2000, p.65.


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