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Deus que se Revela

Revelação significa desvelar, tirar o véu, que encobria “por assim dizer” o rosto de Deus e o seu desígnio em relação ao ser humano e ao mundo. Daí, revelação: desvelamento de Deus e do seu plano salvífico. Esta comunicação de Deus com os seres humanos e seu conteúdo é o fundamento de toda a Teologia, pois que a Teologia trata de Deus e de todos os seres criados a partir da revelação divina acolhida pela fé. “Aprouve a Deus, em sua bondade e sabedoria, revelar-se a si mesmo e tornar conhecido o mistério de sua vontade, pelo qual os seres humanos, por intermédio de Cristo, Verbo feito carne, no Espírito Santo, têm acesso ao Pai e se tornam participantes da natureza divina”[1]. O ser humano pergunta a Deus e é perguntado por Deus. Responde a Deus e é respondido por Deus. Só pergunta por Deus porque Deus já perguntou antes por ele. Só responde a Deus porque Deus já respondeu também criativa e salvificamente. “O mundo e tudo o que está no mundo precisa de um sentido em Deus único e pessoal”[2]. E esse pensamento é fruto de uma revelação e não de pensamentos humanos. Essa revelação de Deus é toda a base da Teologia e da cultura Ocidental. “A história da revelação consiste justamente nisto: em ir Deus conseguindo que este meio opaco e impotente para o infinito que é o espírito do ser humano vá se sensibilizando para sua manifestação, entrando assim em diálogo com sua palavra e acolhendo a força salvadora de sua graça”[3]. Sabemos que mediante a razão natural o ser humano pode conhecer a Deus através de suas obras, mas foi somente através da infinita bondade de Deus e de uma sua decisão totalmente livre que o mesmo se revela e se doa ao ser humano. Seu Coração de Pai, de criador revela seu mistério, sua benevolência concebida desde toda eternidade em Cristo em prol dos seres humanos.

Ao revelar-se Deus quis tornar os seres humanos capazes de responder-lhe, de conhecê-lo e de amá-lo bem além do que seriam capazes. Na sua vontade livre quis fazer das criaturas participantes de seu ser, de sua sabedoria e de sua bondade. “Quão numerosas são tuas obras, Senhor, e todas fizestes com sabedoria!”(Sl 104,24). Cremos que Deus cria do nada, ordena essa criação, destinando-a para que seja um dom para o ser humano, como uma herança que lhe é confiada. E mesmo Deus sendo infinitamente maior que todas as suas obras continua presente no mais íntimo de sua criação. “Deus presente em sua criação não a abandona ao acaso, não lhe dá apenas o ser e a existência, mas continua presente com sua Divina Providência conduzindo a criação para a perfeição”[4]. Poderíamos até dizer que Deus continua criando e recriando a cada dia. Daí vem também e tão urgente hoje o cuidado com a criação e com a vida. Muitas vezes o homem entendeu errado a criação achando-se um ser superior a ela e não um ser em relação com a mesma. O homem é o guardião, jardineiro da criação, deve dominar como imagem de Deus e não como destruidor.

Dentro dessa maravilhosa criação de Deus está presente o homem e a mulher, criados à semelhança e imagem de Deus (cf. Gn 1,27). Por serem imagem de Deus o homem e a mulher têm a dignidade de pessoa, não são apenas coisas, mas alguém. Deus governa a sua criação atribuindo a cada ser e a cada categoria capacidades de ação que lhes permitam se mover e desenvolver por si mesmos. “E deu ao homem e mulher a liberdade de criar sua própria ação, dentro dessa estrutura criada”[5]. O homem e a mulher quebram, rompem a aliança e unidade com Deus, que no seu coração de Criador alenta-os a esperar uma salvação e promete que velaria permanentemente pelo gênero humano, “a fim de dar a vida eterna a todos aqueles que, pela perseverança na prática do bem, procuram a salvação”[6]. A revelação vai passando pelo processo da maiêutica histórica na vida do povo, que aos poucos vai sentindo e entendo isso e assumindo a presença e atuação de Deus em suas vidas. Desfeita a unidade do gênero humano pelo pecado, Deus procura antes de tudo salvar a humanidade passando por cada uma de suas partes. Temos então a primeira aliança com a pessoa de Noé que expressará o princípio da economia divina para com os seres humanos.

Essa aliança com Noé permanecerá em vigor durante todo o tempo das nações, até a proclamação universal do Evangelho em que teremos a expectativa de Cristo “congregar na unidade todos os filhos de Deus dispersos.” (Jo 11,52). “E para congregar essa humanidade dispersa um dos primeiros homens que se volta para Deus foi Abraão, abrindo para nós o sentido da vida e da história”[7]. Abraão sai da sua terra, de sua parentela, ouvindo a voz do Senhor que o chama e o elege como pai de uma multidão de nações (cf. Gn 17,5) e por estar sempre atento à vontade de Deus tem a promessa de que nele “seriam abençoadas todas as nações da terra” (Gn 12,3). A história de Abraão e dos outros patriarcas não devem ser lidas apenas como relatos, mas, sobretudo como Kerigma, em que a personificação antropomórfica tem por finalidade traduzir o caráter intenso e direto da experiência interior. E será o povo originado de Abraão o depositário da promessa feita ao mesmo e aos outros patriarcas. Esse povo é libertado da escravidão do Egito e faz aliança com Deus no Sinai, através do intermediário Moisés. Foi através de Moisés que Deus revelou o seu nome, que representa a essência, identidade: “Eu sou Aquele que Sou” (Ex 3,13). Essa revelação do seu nome se tornou a revelação fundamental para a Antiga e a Nova Aliança. Este nome de Deus é misterioso como o próprio Deus é misterioso. Ao revelar seu nome, Deus, revela ao mesmo tempo sua fidelidade, que é sempre e para sempre válida tanto para o passado: “Eu Sou o Deus de teus pais” (Ex 3,6) como para o futuro: “Eu estarei contigo” (Ex 3,12). Revela-se como o Deus que está sempre presente junto a seu povo para salvá-lo.

Deus, “Aquele que é”, revelou-se a Israel como Aquele que é rico em amor e fidelidade (cf. Ex 34,6). “Esses dois termos exprimem de forma condensada as riquezas do nome divino”[8]. Deus pede para que esse povo obedecesse a sua lei e que o reconhecessem e obedecessem como o único Deus vivo e verdadeiro, como Pai providente e como juiz justo e que esperassem o Salvador prometido. Depois através dos profetas Deus continua a se revelar, vai formando o seu povo na esperança da salvação. Uma salvação que atingirá todas as nações, mas que virá, sobretudo para os pobres e os humildes do Senhor, os portadores dessa esperança (cf. Jr 31,31-34). O povo passa por momentos muito difíceis, muitas provações, cativeiros. “Nesses momentos surgem os profetas e profetizas que, como guias espirituais, interpretam os acontecimentos presentes, deixando sempre uma porta de esperança para o futuro”[9]. A comunicação de Deus continua e se torna Palavra inspirada através da expressão humana. E essa revelação passa pela cultura, história, costumes de um povo. A Bíblia não quer fazer história ou ciência, quer mostrar a experiência de um povo; por isso é sempre atual.

Ainda é preciso dizer que a Bíblia quer que refaçamos a experiência de fé daquele povo, mas ela é um meio e não um fim. A intuição vem de Deus, por isso é revelação, mas muitas vezes não foi bem captada pelos homens. “Nós cremos no Deus que se revelou ao povo de Israel, e depois em Jesus Cristo, e cuja revelação foi consignada nas Sagradas Escrituras”[10]. É o livro sagrado que constitui a Igreja e também é constituído por ela. Escrito no coração da comunidade de fé ele plasma e continua plasmando nossas comunidades. A Bíblia vai despertar o profeta que está dentro de cada um para não se acovardar. Ela ajuda a dar à luz àquilo que já somos e temos dentro de nós pela livre iniciativa do amor criador. “A revelação bíblico-cristã descreveu um processo que foi da experiência até sua verbalização no sentido de utilizar o papel mediador da palavra falada e depois escrita para traduzir essa experiência crida como manifestação de Deus”[11]. Segundo a revelação bíblica toda revelação de Deus é ao mesmo tempo um convite a abandonar-se ao mistério. Todo encontro com Deus é encontro com o mistério.  A sua existência e a sua revelação implicam a referência a um mistério sempre maior. O ser humano é chamado a escutar e a inserir-se na dinâmica própria da revelação que conduz sempre mais além, até a contemplação face a face.

E por fim a revelação de Deus que acontece como vimos na história, nos acontecimentos, palavras de um povo se dará de forma definitiva em Jesus Cristo, pois ele foi tudo isso: se encarna na história, nas palavras e nos acontecimentos. “O Logos (sentido da criação) se fez homem e se tornou Evangelho. A Teologia caminhando com os seres humanos. Tudo em Jesus é revelador, ele era a exegese viva”[12]. Nós descobrimos a divindade de Jesus em sua humanidade, por isso é preciso estar atentos às suas atitudes, ao que fez e ensinou. Deus que visita os seres humanos vem nos pobres, para que na lógica e pedagogia divina ninguém se sinta excluído da visita de Deus. Com a revelação passa-se para uma nova consciência do ser humano, do mundo e do real, pois ela muda o estado de consciência humana. Se a revelação não provoca o ser humano, cai no vazio, pois ela acontece por iniciativa de Deus, mas precisa da resposta humana. “A Revelação acontece não numa simples linearidade, mas ao longo de momentos fundamentais, importantes, decisivos, que se constituem chave de interpretação de todo outro acontecimento da história humana, quer anterior, quer simultâneo, quer posterior a esses momentos explícitos da história da salvação e da revelação”[13].

 [1] DV 2.

[2] Leonardo BOFF, O Senhor é o meu Pastor, Petrópolis, 2009, p. 37.

[3] Andrés T. QUEIRUGA, A Revelação de Deus na realização humana, São Paulo, 1995, p. 23.

[4] ADV. Haer. III, 20,2.

[5] José COMBLIN, Jesus Cristo e sua missão, São Paulo, 1985, p. 29.

[6] DV 3.

[7] Bruno FORTE, Teologia da história, São Paulo, 1995, p. 95.

[8] CEC 214.

[9]  João Batista LIBANIO, Eu creio, nós cremos, São Paulo, 2000, p. 347.

[10] Edward SCHILLEBEECKX, Revelação e Teologia, São Paulo, 1968, p. 12.

[11] René LATOURELLE, Teologia da Revelação, São Paulo, 1972, p. 14.

[12] Mário F. MIRANDA, Libertados para a práxis da justiça, 1980, p. 13.

[13] João Batista LIBANIO, Eu creio, nós cremos, São Paulo, 2000, p. 349.


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