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Sacratíssimo Coração de Jesus

 No dia 12 do mês de junho, celebraremos a solenidade do Sagrado Coração de Jesus. Sou padre de uma Congregação religiosa dedicada ao Sagrado Coração de Jesus e nosso querido fundador Pe. João Leão Dehon no fim de sua vida nos deixara como testamento espiritual para que descobríssemos o maravilhoso tesouro que este culto contém. O coração, tantas vezes associado ao amor ou usado como fonte e lugar dos sentimentos, pode trazer surpresas quando bem entendido e estudado e até encantar em se tratando do divino e de sua relação com os seres humanos. A palavra coração não é uma moda da Teologia do momento. Encontra-se presente ao longo das Escrituras e foi usada em todos os tempos.

O povo judeu entendia o coração como a própria pessoa, o ser humano por inteiro, enquanto sujeito capaz de receber e retribuir afetos, de sofrer, ver, alegrar-se, odiar, traçar planos; enfim o ser humano enquanto ser sensível, tanto que poderíamos substituir a palavra coração com o nome ou pronome da pessoa de quem se fala sem qualquer dificuldade. O coração era visto como espelho da alma: era a pessoa mesma vista nas suas raízes profundas, onde cada pessoa era plenamente ela mesma. O semita não conhecia a dualidade entre corpo e espírito. Por isso o coração era para ele o centro da vida física, psíquica, afetiva, intelectual, volitiva e moral. Dentro desse pensamento o coração ainda era visto como o “lugar” onde se concentrava todo ser dos homens e mulheres; era a parte interior de cada um, donde se originavam as suas decisões últimas e se vivia as experiências decisivas.

Em se tratando da devoção ao Sagrado Coração de Jesus não são suficientes as perspectivas devocionais ou as considerações místicas sobre este coração, mas é preciso redescobrir cada vez mais a pessoa de Cristo em sua totalidade e o mistério de seu coração trazendo para o hoje de nossa história o que esse mesmo coração exige ou pede do coração do ser humano.

Amou a todos com um coração humano. Por esta razão “o Sagrado Coração de Jesus, transpassado pelos pecados da humanidade e para a sua salvação é considerado o principal sinal e símbolo daquele amor com o qual o divino Redentor ama interruptamente o Pai e todos os seres humanos”[1]. Mostrava que Deus é presença, que cuida, é gratuito e livre no amor. Jesus vem pregar acima de tudo com a própria vida que Deus é amor e que está do lado dos pobres e marginalizados (cf. Lc 4,18ss) e quer mostrar aos homens e às mulheres de todos os tempos que quando nos apegamos aos milagres de misericórdia estamos prolongando a sua ação no meio da humanidade. As pessoas encontravam Deus em Jesus e Deus encontrava as pessoas em Jesus. Jesus se misturou tanto aos homens que os homens agora são salvos com Ele. A humanidade entra em comunhão com ele quando em suas atitudes e gestos há solidariedade com os sofridos.

 “Quando falamos do Coração de Jesus nos referimos ao homem do coração novo que foi recriado no espírito das bem-aventuranças, provado definitivamente na paixão, libertado na ressurreição pelo poder do Espírito e aberto pelo Pai na transfixão como fonte da novidade humana”[2]. A profundidade mais misteriosa do Coração de Cristo é justamente esta: naquele Coração de homem revela-se e se doa o Coração do próprio Deus. O infinito dentro do finito, o amor divino no amor humano, a vontade de salvação misericordiosa de Deus no desejo de salvação de Jesus.

A espiritualidade do Coração de Cristo é um modo de sentir e viver todo o mistério de Cristo como mistério de amor e como presença entre nós e em nós do amor infinito. O Coração de Jesus nos diz que Deus é amor, que Ele se revela e se doa no amor de Cristo. Como Jesus possuiu um verdadeiro corpo humano, dotado de todos os sentimentos que lhe são próprios, entre os quais sobressai o amor; do mesmo modo é bem verdade que Ele foi provido de um coração físico em tudo semelhante ao nosso.

Uma espiritualidade contemporânea do Coração transpassado deve fundamentar-se numa espiritualidade do coração que tenha como base a experiência pessoal e que se dirija para o ser profundo dos outros. “Hoje até poderíamos ousar dizer que a verdadeira devoção ao Sagrado Coração de Jesus passa pela pessoa do outro e deveria gerar em nós amor, serviço, compaixão, misericórdia e até mesmo reparação”[3].

O culto contém a mensagem com que se dirige a todo ser humano, recordando-lhe que Deus se fez presente entre nós, que Deus se abaixou até a nossa condição e que Cristo, revelando-nos o mistério de seu Coração, nos interpretou os males do mundo, e nos mostrou qual é a sua causa: separado do sobrenatural, separado de Deus, o mundo quedou-se sem o Espírito que vivifica (cf. Jo 6,63). E enquanto não voltar a abrir-se para ele, não viverá.

“Ser cristão é viver em Deus, diante de Deus, com Deus deixando que o próprio Deus viva em nós”[4]. Apesar das dificuldades e desafios do ser humano que carrega esse tesouro em vasos de argila (cf. Cor 4,7) “com essa espiritualidade originada da Trindade é possível assemelhar-se ao Coração do amor e procurar ser sinal desse coração para o mundo, que anseia por corações mais compreensíveis, abertos e humanos”[5]. E quanto mais humano e integrado, mais o divino se revelará nesse humano. Enquanto estamos peregrinando por este mundo somos convidados a repetir todos os gestos de Cristo; somos convidados a uma vida de profunda criatividade para que o nosso ser não se frustre por egoísmo ou por vaidade, mas caminhe para uma plenitude que está reservada para cada um desde sempre. O amor de Cristo quer nos envolver para que possamos participar do ato criador do Pai que nos delega no seguimento de seu Filho ser uma presença de sua glória em todas as relações e em todas as nossas atitudes.

[1] CEC 478.

[2] Idem, p. 92.

[3] Enrico della VALLE, Espiritualidade do Coração, São Paulo, 1988, p. 64.

[4] Maria C. BINGEMER; Galdino FELLER, Deus amor: a Graça que habita em nós, São Paulo, 2003, p. 146.

[5] Edouard GLOTIN, O Coração de Jesus: abordagens antigas e novas, São Paulo, 2003, p. 39.


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