Pentecostes e o início da Igreja


A Igreja é vivificada e animada pelo Espírito Santo. Como vemos em Pentecostes, não basta um grupo de pessoas para se formar uma comunidade cristã; é preciso o Espírito divino. Santo Ireneu explica porquê: «Assim como não é possível, sem a água, fazer da farinha um pão, assim também nós, que somos muitos, não podíamos tornar-nos um só em Jesus Cristo, sem a água que vem do Céu», o Espírito Santo. Este habita na Igreja, não como hóspede, nem um estranho, mas como a sua alma, que transforma a comunidade em templo santo de Deus, assimilando-a continuamente a Si por meio do dom que Lhe é próprio, a caridade.

Hoje queremos refletir sobre o mistério do corpo de Cristo, que é a Igreja enquanto vivificada e animada pelo Espírito Santo. Depois do acontecimento de Pentecostes, o grupo que dá origem à Igreja muda profundamente: primeiro se tratava de um grupo fechado e parado, cujo número era de “uns cento e vinte” (At 1,15); logo se transformou em um grupo aberto e dinâmico ao qual depois do discurso de Pedro, “se uniram umas três mil pessoas” (At 2,41). A verdadeira novidade não é tanto este crescimento numérico, ainda que seja extraordinário, mas a presença do Espírito Santo. Com efeito, para que exista a comunidade cristã não basta um grupo de pessoas. A Igreja nasce do Espírito do Senhor.

Este nascimento no Espírito, que teve lugar para toda a Igreja em Pentecostes, se renova para cada crente no batismo, quando somos mergulhados “em um só Espírito”, para ser enxertados “em um só corpo” (1Cor 12,13). A presença do Espírito Santo na Igreja faz que ela, ainda que esteja marcada pelo pecado de seus membros, seja preservada do defeito. Com efeito, a santidade não só substitui o pecado, como o supera. Também neste sentido se pode dizer com São Paulo que onde abundou o pecado, superabundou a graça (cf. Rm 5,20). O Espírito Santo habita na Igreja, não como um hóspede que, portanto, é um estranho, mas como a alma que transforma a comunidade no “templo santo de Deus”. (1 Co 3, 17; cf. 6, 19; Ef 2, 21).

O Espírito que habita na Igreja mora também no coração de cada fiel: é o dulcis hospes animæ. Portanto, seguir um caminho de conversão e santificação pessoal significa deixar-se “guiar” pelo espírito (cf. Rm 8,14), permitir a Ele trabalhar, orar e amar em nós. “Fazer-nos santos” é possível, se nos deixamos santificar por aquele é o Santo, colaborando docilmente em sua ação transformadora. “Por isso, para o fortalecimento da fé e do testemunho dos cristãos, “é necessário suscitar em cada fiel um verdadeiro anseio de santidade, um forte desejo de conversão e de renovação pessoal em um clima de oração cada vez mais intensa e de solidária acolhida do próximo, especialmente do mais necessitado” (Tertio millennio adveniente, 42). Podemos considerar que o Espírito Santo é como a alma de nossa alma e, portanto, o segredo de nossa santificação. Permitamos que sua presença forte e discreta, íntima e transformadora, habite em nós.

Na bem-aventurança eterna viveremos na alegre participação, que agora está prefigurada e antecipada pela Eucaristia. Então o Espírito fará amadurecer plenamente todas as sementes de comunhão de amor e de fraternidade que tenham florescido durante nossa peregrinação terrena. Como afirma São Gregório de Nissa, “envolvidos pela unidade do Espírito Santo, assim como pelo vínculo da paz, todos serão um só corpo e um só Espírito” (Hom 15 in Cant.).


pe marcos3

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