A VISITA DE JOÃO PAULO II


Nem o calor de 41 graus, nem a poeira, impediu que sua santidade rezasse a mais importante missa em toda a história de Mato Grosso. Apesar de o evento estar sendo transmitido ao vivo pela televisão, na época, estimou um público de quase 200 mil pessoas nas ruas e no “papódromo”, no bairro Morada do Ouro, onde foi realizada a Santa Missa.

O polonês Karol Josef Wjtyla foi eleito Papa em 1978, quando passou a se chamar João Paulo II, falecendo no dia 02 de abril de 2005, após enfrentar dias de agonia em seu apartamento no Vaticano. Seu “papado”, diz a história, foi marcado pelas viagens que fez a mais de cem países, e o Brasil está entre eles, com Várzea Grande e Cuiabá recebendo este privilégio, acontecido no dia 17 de outubro de 1991.


Desembarque – Eram 9h17min quando o Papa João Paulo II pisou pela primeira vez no solo várzea–grandense, e ao desembarcar, foi recebido pelo arcebispo Dom Bonifácio Piccinini, guarda da Polícia de Aeronáutica, governador Jaime Campos e a primeira dama, Lucimar Campos. Outras autoridades, como o vice – governador Osvaldo Sobrinho e os presidentes da Assembléia Legislativa e Tribunal de Justiça, Moisés Feltrin e Shelma Lombardi, além do reitor da UFMT, Augusto Frederico Muller e o general da 13ª Brigada de Infantaria Motorizada, Arlênio Souza da Costa e o chefe de Cerimonial do governo, coronel Luiz Nélson, os prefeitos Frederico Campos de Cuiabá, e Carlos Gomes, de Várzea Grande, estiveram presentes na recepção ao Papa João Paulo II. Como era esperado por todos, o Papa não quebrou o protocolo e beijou o solo mato–grossense.

Trajeto –  Apesar da temperatura chegar acima dos quarenta graus, a área em frente ao Aeroporto Marechal Rondon, onde hoje está instalado o estacionamento, estava completamente lotado, o mesmo acontecendo ao longo das avenidas Ponce de Arruda e FEB, em Várzea Grande, estendendo pelas avenidas XV de Novembro(Prainha), Tenente Coronel Duarte e Rubens de Mendonça (CPA), todas tomadas pela população exibindo faixas, bandeirinhas e posters do Santo Padre. O que se via era um corredor humano por todo o caminho percorrido pelo Papa João Paulo II até o “Papódromo”, onde seria celebrada a Santa Missa. Algumas pessoas lamentaram que o “Papamóvel’ passou pelas avenidas em uma velocidade próxima 40 quilômetros por hora, alta demais para que o povo pudesse ver Sua Santidade.

“Foi tão rápido que tenho a impressão que nem aconteceu”, lamentou a dona de casa de Várzea Grande, Márcia Reis de Andrade, que tinha 30 anos na época. A maranhense Hilda Coimbra Amorim, 79 anos, estava feliz por morar em frente a Paróquia São Gonçalo, no Porto. “Passou bem pertinho de mim, e apesar de não ter falado com ele, estou abençoada, e foi o melhor momento de minha vida”, avaliou. A segurança contou com quase 500 homens, e nada de anormal aconteceu durante a estada do Papa em solo mato–grossense.


Santa Missa – Durante a Missa, João Paulo II, no Sermão o Papa comentou sobre a ecologia e o fluxo migratório. O pontífice disse que não veio a Mato Grosso como os bandeirantes de antigamente, ou igual aos garimpeiros da época da visita. “Estou em Cuiabá, coração geográfico da América do Sul, para conhecer, abençoar e trazer minha palavra ao povo bom desta terra”, disse ele durante um trecho de sua mensagem, voltada basicamente para as questões da ecologia e migração. 

Para o Papa João Paulo II, os problemas da migração e do meio ambiente afligiam a todos, especialmente, o homem de Mato Grosso. Analisou que o problema do migrante seria uma questão que vinha de outros Estados da Federação ou do exterior, sempre procurando melhores condições de vida e trabalho para si e sua família. Destacou que a busca por um pedaço de terra no campo ou na cidade, ficava difícil, pois o migrante não teria condições técnicas e financeiras para iniciar uma vida nova, ou porque os grandes latifundiários não lhe permitiriam acesso a terra.

Apesar do forte calor no horário dás 12h, permitiu que colocasse em sua cabeça um cocar indígena, ganho em oferenda. Durante a Santa Missa, foi flagrado enxugando o suor que escorria pelo rosto, e mesmo mantendo a compostura diante das atividades, em alguns momentos da Missa, perdeu – se na leitura do Sermão. A cuiabana Débora Cristina Coelho, considerada fanática católica, por pouco não conseguiu abraçar o Santo papo durante a Missa. “Os seguranças conseguiram me deter à menos de três metros de Sua Santidade. Seria a glória”, comentou.

Comunhão – Durante a comunhão, comentam que até mesmo quem não tinha se preparado através da confissão, ficaram na fila para receber das mãos do Santo Papa a hóstia sagrada. Teve casos curiosos, como uma mulher que pediu ao segurança que entregasse ao Papa João Paulo II uma garrafa cheia de grãos de milho. Intrigado com o pedido, o segurança quis saber o significado do pedido, e recebeu da senhora a resposta de que cada grão de milho representava um pecado que ela tinha cometido, e como estava arrependida, queria penitenciar. O arcebispo de Cuiabá, Dom Bonifácio Piccinini, cumprindo uma promessa feita tempos atrás, solicitou do Papa a benção de vários objetos religiosos que estava com os fiéis. Foi atendido e o povo feliz com a benção das fotos, medalhas e rosários benzidos por sua Santidade.


Indígenas – O Índio Aniceto, da Tribo Xavante, presenteou o Papa João Paulo II com um Wairó, como uma coroa de chefe, e ainda uma “borduna”, que para os índios, significa o poder. O líder indígena, Manoel Kaxinauá solicitou ao papa para que levasse aos povos do mundo o grito de clamor por justiça, e assim, o mundo ficaria sabendo que as nações indígenas estão desaparecendo no Brasil. Edna Silva de Souza, da Tribo Guarani, e filha de Marçal Tupã, líder indígena morto no dia 25 de novembro de 1983, pediu ao Santo Papa para que o mesmo intercedesse junto às autoridades brasileiras no sentido de fazer justiça pelo assassinato do pai. “Os assassinos continuam impunes”, disse ela na época, confirmando que o pai se notabilizou pela luta em defesa do povo Karyuá, de Mato Grosso do Sul. Reivindicou ainda a demarcação das terras Guarani do Pananbi, Pananbizinho, Sucuri, Guassuti, Jaguari, Sete Cerros, Cerrito, Cerro Marangatu e Paraguasú, todos em Mato Grosso do Sul. Liderados por Reinalice de Almeida, de Juina, aconteceu um protesto contra os índios que mataram sua família. “A reserva é liderada pelos caciques Poeira e Lampião, que além de dizimar minha família, esquartejaram os corpos para que os legistas não pudessem identificar as vítimas”, disse Reinalice, que jurou na época que a chacina, a morte de cinco membros da família, todos os agricultores, foi provocada pela Tribo Cinta Larga, motivada por questão de terras. Chorando, ela disse que “quero que o mundo inteiro saiba o que acontece por aqui. Eles são civilizados, têm armas pesadas, veículos novos, televisão a cores e até antena parabólica”, acusou, e triste comentou que não conseguia justiça, e que sua cabeça estava a prêmio, e até foi aconselhada por um promotor de justiça de Juina, que não se lembrava o nome, a deixar a cidade o mais breve possível. “Quem sabe com as benções do Papa João Paulo II, nossa gente consiga justiça, e o que é melhor, viver em paz”, arrematou.

Visitas – Durante o tempo em que permaneceu em Cuiabá e Várzea Grande, o Papa deixou a última visita para a UFMT, e saiu impressionado com a participação dos jovens. Parecia mais um show de rock, dizia a juventude na época. Vestido de jeans, camiseta e tênis, cerca de cinco mil jovens explodiam de felicidade no Ginásio da UFMT com a presença do Papa, que comentou com o arcebispo Dom Orlando Piccinini, ter este encontro com a juventude, foi o melhor momento em sua visita no Brasil. Eram 16h30min quando o Papa João Paulo II entrou no Ginásio, e contagiado pelo espírito descontraído da juventude mato–grossense, entrou no clima, e saiu abraçando e beijando todas as pessoas que o procuravam. A acreana Maria das Dores de Souza, 25 anos, leu a mensagem da Pastoral da Juventude do Brasil para o Papa, e emocionada, disse que “Somos os filhos pobres de um país rico, pois, mais de 50% da riqueza que produzimos, está nas mãos de apenas 10% da população avaliou, e na época, disparou “A grande parte é destinada a pagar uma dívida externa que nunca termina e que transfere para a farta mesa dos países ricos, as migalhas das mesas dos pobres brasileiros”, ressaltou a líder católica. Ao deixar a UFMT, visivelmente cansado, o Papa apoiou em pé em uma cadeira, e comentou que mesmo assim tudo valia a pena pela alegria e entusiasmo que o povo mato–grossense teve em recebê-lo. É bom lembrar que o Corpo de Bombeiros para amenizar o calor teve que utilizar caminhões pipas jogando água sobre a população. O soldado do Corpo de Bombeiros, Gilson Pedroso Alvarenga, na época com 27 anos, católico, garantiu que mesmo que não estivesse escalado para trabalhar na visita do Papa João Paulo II, iria assim mesmo assistir a Santa Missa. “O Papa é o mensageiro da paz e do amor”, avaliou.


Adeus e Saudades – Na despedida, após deixar a UFMT, João Paulo II seguiu direto para o Aeroporto Marechal Rondon, em Várzea Grande. Eram 18h39min quando o Boeing presidencial levantou vôo com destino a Campo Grande, deixando por aqui fiéis que fizeram questão de ficarem de joelhos, rezando um terço, próximos ao Aeroporto, e só se levantaram quando o avião sumiu entre nuvens no céu de Mato Grosso. Se o Papa João Paulo II disse ao arcebispo Dom Bonifácio Piccinini que iria sentir muitas saudades de Cuiabá, pois aqui foi recíproco, pois o povo em vida, e até depois da sua morte, certamente nunca esquecerão da visita mais ilustre que Mato Grosso recebeu em toda sua história.